segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Santiago de Compostela

Compostela, campus stellae, campo de estrelas.
É uma visão de luzes brilhantes como estrelas que, agregado ao nome do apóstolo, dá nome à cidade de Santiago de Compostela.

Após a crucificação de Cristo, Jacob, um dos seus apóstolos, vai até o norte da península Ibérica com o intuito de pregar o Evangelho (Santiago é o nome que os espanhóis dão a Jacob). Obtendo pouco êxito volta para Jerusalém, sendo aí torturado e decapitado a mando de Herodes Agripa em 44 d.C. Herodes proíbe que o corpo do apóstolo seja enterrado, porém, seus discípulos, Atanásio e Teodoro, conseguem levar o corpo até a beira do rio e aí encontram uma barca preparada com uma lápide em mármore. Trasladam o corpo até a Galícia e aí o enterram. Neste caminho vários milagres acontecem, pessoas são convertidas ao cristianismo e os cultos celtas, característicos da região, passam a ser proibidos.
* A Galícia sofreu bastante influência celta e até hoje escuta-se pelas ruas de Santiago artistas tocando gaitas de fole, por influência da música celta na região.

Em 813 d.C. um eremita chamado Pelayo vislumbra uma chuva de estrelas num campo na região de Galícia e descobre que aí está sepultado um corpo com a cabeça degolada; o corpo é identificado como sendo do apóstolo Santiago. O bispo Teodomiro confirma o nome do apóstolo na lápide, manda chamar o rei Afonso II que indo até o local converte-se no primeiro peregrino da história. O rei, então, proclama Santiago como patrono do país e manda construir aí um santuário que mais tarde seria a catedral de Santiago de Compostela.





A partir do século XI, a cidade passa a exercer forte influência sobre o cristianismo europeu e o local passa a ser ponto de destino de vários cristãos peregrinos, passando posteriormente a ser um ponto forte de intercâmbio cultural. Inicia-se, então, o culto jacobeu (jacob = santiago / em gallego xacobeu). Santiago tem, portanto, uma grande importância na reconquista espanhola tornando-se símbolo da Espanha cristã.


O caminho de Santiago é carregado de muito simbolismo e o objeto que mais o representa, ou pelo menos o objeto que mais pode ser visto na cidade, seja nas mochilas dos peregrinos, em chapéus, nos cajados ou nas lojas e barraquinhas de souvenirs é a concha. Reza a lenda que concha representa um receptáculo, para receber a esmola e a graça de Deus.

Fui para Santiago de trem, desde Madrid. São quase seis horas de viagem por terras de Castilla y León e posteriormente por terras de Galícia. O caminho é tão belo que dá a impressão de que o tempo passa rápido e seis horas transformam-se em três.


O principal local de Santiago de Compostela é a imensa Praza do Obradoiro (assim mesmo, praza, em gallego).
Aí estão a famosa Catedral, o prédio sede do governo gallego, a Universidade de Santiago de Compostela e o Hostal dos Reyes Catolicos, que na antiguidade servia como hospital para os peregrinos.
A praça é também o ponto de chegada dos peregrinos a Santiago.


Fiquei boa parte do meu tempo aí na praça observando as pessoas que chegavam.
São grupos que pulam, cantam e dançam alegres ao chegar.
São casais que se abraçam.
São solitários que se deitam no chão.
São pessoas que não contem o choro, muitas...
Fiquei ali pensando na vida e decisão de cada um que fez o caminho. De onde vieram? Fizeram os caminhos mais curtos ou os mais longos???

A cidade está lotada de peregrinos. Não somente na praça.
Incomodou a quantidade de gente nas principais ruas de comércios e bares: Rua do Villar, Rua do Franco (sim, em gallego não é calle, é rua). Prefiro as cidades mais vazias de gente.


Mas afastando-me um pouco da região mais lotada descobri uma Santiago que me pareceu diferente de outras cidades espanholas, pela sua arquitetura. Há a Praza do Obradoiro, mas não há uma Plaza Mayor como as de outras cidades espanholas que conheci.
Seus prédios lembram Portugal e, apesar da quantidade de gente, de jovens, de bares lotados, há algo de melancolia em Santiago que me remete a Portugal.

A Rua Nova, toda com arcos, foi a rua escolhida para passar para lá e para cá porque amei sua arquitetura.



Andar pelos caminhos escondidos de Santiago pode trazer gratas surpresas.



Na Galícia a língua presente nas placas, nos restaurantes, nas conversas de rua é o gallego.
O gallego é proveniente do latim vulgar e já foi chamada gallego-portugués, devido a sua semelhança com a nossa língua.
Já li sobre o fato de que o gallego tem sido bastante abandonado devido à soberania do castellano como lígua oficial e idioma da Espanha, porém o fato é que escutei bastante gallego pelas ruas de Santiago. Muitas vezes pensava que eram portugueses falando, mas não, era gallego. Acredito que nas áreas rurais a coisa deva ser mais radical na preservação da língua.

Onde comi?

Nesta simpática e estreitíssima rua, chamada Ruela de Entreruas, há o restaurante de mesmo nome que serve autêntica comida gallega.
Aí comi um delicioso prato de chipirones acompanhado da local Estrella Galicia, que sai de chopeiras lindinhas como essa aí embaixo.



Também comi no imperdível Mercado de Abastos de Santiago onde você pode comprar seu próprio peixe ou carne e pedir para cozinhar no bar local pelo preço de 4 Euros.
Como estava salivando para comer um "pulpo a la gallega" e o bar não cozinha mais polvos desde junho, a solução é comprar um fresquíssimo polvo cozido e troceado aí na sua frente em um quiosque e levá-lo até o bar do mercado consumindo a bebida deles. Foi o melhor polvo que já comi na vida!!!!



Fora isso saí de "tapeo" e me acabei na tortilla gallega que nada tem a ver com a de outros locais da Espanha. Muito mais cremosa e macia. Quase derretendo-se.

O La Tita na Rua Nova é um clássico fazedor de tortillas. Dá para comer uma "ración" ou se estiver sozinho como eu, pedir uma caña que virá acompanhada de um pintxo de tortilla que para mim é suficientemente grande.



O que vi além dos pontos turísticos?
Uma bela exposição de fotos de Ramón Sánchez Estalote na Casa del Cabildo, na Praza de Platerías.
Estalote, fotógrafo compostelano, andou por sua cidade natal com sua Leica por muitas décadas. Usualmente fotografava em preto e branco e tinha como inspiração os ritos católicos, as feiras, os peregrinos, as festas de rua. Pouco se sabe sobre sua biografia; sabe-se que ele era muito reservado e introvertido.

fotos de catálogo de Estalote  














Praza de Praterías com Cabildo ao fundo

Quando a noite cai em Santiago de Compostela, os peregrinos cansados da longa jornada que tiveram e da adrenalina liberada na chegada e os turistas já com a ordem do dia cumprida, poucos são os que ficam pelas ruas e a cidade mostra-se bela e sombria. Vazia de gente, cheia de história.
Melhor hora não há!